A vida como soldado
Depois de ingressar na guarda de Elturel aos dezenove anos, Guts passou a dedicar praticamente toda a sua vida ao exército.
Durante os cinco anos seguintes, construiu sua reputação como soldado através de sua disciplina, resistência e capacidade em combate. Aos vinte e quatro anos, foi promovido a sargento e passou a liderar tropas diretamente nos campos de batalha.
Foi nesse período que Guts começou a se destacar principalmente como comandante.
Chegou a liderar mais de trezentos homens de uma única vez e tornou-se conhecido por suas estratégias extremamente ofensivas. Guts não era o tipo de comandante que observava uma batalha de longe. Era agressivo, avançava junto de seus homens e constantemente elaborava planos que colocavam suas tropas na ofensiva.
E, na maior parte das vezes, seus planos funcionavam.
No fundo, Guts nunca havia deixado completamente de possuir aquela natureza guerreira que carregava desde sua infância entre os orcs. Orcs gostavam da carnificina.
Guts apenas precisava de um motivo para ela.
No exército, ele encontrou esse motivo.
Durante anos, sua vida passou a girar em torno das batalhas, das missões e dos homens sob seu comando.
Fora do campo de batalha, entretanto, Guts era muito diferente da imagem intimidadora que apresentava como comandante. Era extremamente sociável, gostava de festas e aproveitava a vida sempre que tinha oportunidade.
Ao longo dos anos, tornou-se uma figura conhecida em Elturel e conquistou prestígio dentro da cidade.
Apesar disso, nunca construiu uma família.
Sua vida era o exército.
E assim permaneceu durante muitos anos.
A missão na fortaleza Aos trinta e quatro anos, dez anos depois de sua promoção a sargento, Guts recebeu uma missão que mudaria completamente sua vida.
As informações que chegaram até ele pareciam simples: um grupo de bandidos havia ocupado uma fortaleza da região e precisava ser removido.
Para Guts, parecia apenas mais uma operação.
Confiando em sua experiência e acreditando que enfrentaria criminosos comuns, reuniu um pequeno pelotão de aproximadamente trinta homens.
Foi justamente essa confiança que o levou a cometer um dos maiores erros de sua vida.
Guts tratou a missão com displicência e imprudência.
Acostumado a anos de vitórias e à eficiência de suas estratégias ofensivas, elaborou um plano de invasão sem tomar os mesmos cuidados que normalmente tomaria diante de uma ameaça realmente perigosa.
Ele acreditava que seria fácil.
Não era.
Assim que entraram na fortaleza, seu pelotão caiu em uma armadilha.
Os homens que ocupavam aquele lugar não eram bandidos.
Eram magos de Thay ligados à necromancia.
O pequeno pelotão de Guts não estava preparado para enfrentá-los.
A maioria de seus homens morreu durante o confronto.
Outros foram capturados.
Guts estava entre eles.
Cinco dias Quando voltou a abrir os olhos, Guts estava amarrado sobre uma espécie de mesa de cirurgia.
Ele não sabia quanto tempo havia passado.
Ao redor dele estavam instrumentos, runas mágicas e substâncias que não reconhecia.
Além das paredes da sala, conseguia ouvir os gritos de seus companheiros.
Os magos estavam realizando experimentos com os soldados capturados.
Guts foi submetido a diversos procedimentos. Substâncias eram injetadas em seu corpo, runas eram utilizadas e diferentes formas de magia eram testadas nele.
Ele se lembra muito pouco daquele período.
Sua memória daqueles dias é fragmentada.
Momentos em que acordava.
Dor.
Vozes.
Runas.
Experimentos.
Depois, escuridão novamente.
Guts estima que tenha permanecido naquela fortaleza por aproximadamente cinco dias.
Durante esse período, praticamente não recebeu comida. Recebia apenas o mínimo de água necessário para mantê-lo vivo enquanto os experimentos continuavam.
Seu corpo era levado repetidamente ao limite.
Acordava por algum tempo, perdia a consciência e eventualmente despertava novamente para outro procedimento.
Até que, em algum momento, seu corpo não respondeu mais.
Para os necromantes, Guts havia morrido.
Os experimentos aparentemente não haviam produzido nenhuma reação que considerassem útil.
Ele foi declarado morto.
E descartado junto aos demais corpos.
O retorno Mas Guts era um orc.
Seu corpo possuía uma resistência muito maior do que os necromantes aparentemente haviam considerado.
Algumas horas depois de ter sido jogado entre os mortos, Guts voltou à vida.
Quando abriu os olhos novamente, estava dentro de um grande buraco utilizado para descartar corpos.
Havia homens ao seu redor.
Alguns ele reconhecia.
Outros não.
Seu corpo estava extremamente debilitado e sua mente profundamente perturbada depois dos dias de experimentos.
O buraco tinha aproximadamente quatro metros de profundidade.
Guts olhou para cima.
Naquele momento, sua única vontade era sair dali.
Então alguma coisa aconteceu.
Sem entender como, Guts desapareceu do fundo do buraco e surgiu do lado de fora.
Ele havia se teleportado.
Guts não sabia que era capaz de fazer aquilo.
Naquele momento, sequer compreendia exatamente o que havia acontecido.
Quando conseguiu observar seus arredores, viu uma grande fogueira.
Corpos estavam sendo queimados.
Entre eles, reconheceu partes das armaduras utilizadas pelos homens de seu pelotão.
Mesmo quase sem forças, conseguiu se arrastar pelo terreno até alcançar um dos muros da fortaleza.
Encontrou uma pequena abertura e olhou através dela.
Novamente, quase instintivamente, aconteceu a mesma coisa.
Guts desapareceu de um lado do muro e surgiu do outro.
Ele havia se teleportado outra vez.
Foi assim que conseguiu escapar da fortaleza.
O despertar do Portal Jumper
Esse primeiro teleporte representa, dentro da história, o despertar do talento Portal Jumper.
Ele surge diretamente da extraordinária resiliência de Guts. Depois de ser levado ao limite pelos experimentos, dado como morto e descartado, seu corpo orc resistiu. Ao retornar, em uma situação extrema e movido pelo desejo desesperado de escapar, Guts manifestou pela primeira vez essa capacidade de se teleportar.
Portanto, o Portal Jumper não é apenas uma habilidade mecânica do personagem: dentro da lore, ele nasce diretamente do momento em que Guts sobrevive aos experimentos.
O único sobrevivente Ferido, exausto e quase incapaz de se mover, Guts continuou avançando até alcançar um vilarejo próximo que sabia pertencer aos domínios de Elturel.
Ali recebeu cuidados.
Suas feridas foram tratadas e, aos poucos, conseguiu recuperar suas forças.
Foi então que descobriu que estava desaparecido havia aproximadamente uma semana.
Todo o seu pelotão já havia sido considerado morto.
Quando finalmente retornou a Elturel, descobriu que aquela avaliação estava correta.
Nenhum dos homens que havia levado consigo havia retornado.
Guts era o único sobrevivente.
Mas ele não havia voltado da mesma forma que partira.
Seus olhos, antes amarelados, agora eram roxos.
E, de alguma maneira que ainda não compreendia, Guts havia adquirido poderes mágicos.
O teleporte que utilizara durante sua fuga era apenas uma manifestação deles.
Barovia As lembranças dos experimentos continuavam confusas.
Guts não sabia exatamente o que os necromantes haviam feito com seu corpo.
Entretanto, havia uma palavra que permanecia em sua memória.
Barovia.
Durante os momentos em que esteve consciente, lembra-se de ouvir os magos mencionando o lugar.
Pelo pouco que conseguiu compreender das conversas, os magos de Thay estavam tentando encontrar alguma maneira de atravessar as barreiras de névoa de Barovia.
Talvez através de teleporte.
Talvez através de alguma forma de resistência.
Guts nunca conseguiu entender exatamente qual método buscavam.
Mas percebeu que os experimentos realizados nele e nos outros prisioneiros estavam relacionados a isso.
Era uma das poucas informações que havia conseguido trazer daquele lugar.
A verdade sobre a missão Depois de retornar a Elturel, Guts começou a tentar entender como aquela operação havia dado tão errado.
Conversou discretamente com militares que conhecia e iniciou uma pequena investigação por conta própria.
Foi então que descobriu algo que o abalou quase tanto quanto os próprios experimentos.
Alguns dos oficiais responsáveis por organizar aquela missão — tenentes, capitães e outros superiores — sabiam que a fortaleza provavelmente não estava ocupada por simples bandidos.
Eles não sabiam exatamente qual ameaça existia ali.
Mas sabiam que poderia ser algo muito maior.
Mesmo assim, enviaram Guts e seus homens sem compartilhar essa informação.
Na prática, o pelotão havia sido utilizado para descobrir o que existia dentro da fortaleza.
Guts percebeu que ele e seus trinta homens haviam sido colocados em risco em troca de informação.
Durante aproximadamente quinze anos, havia dedicado sua vida àquele exército.
Havia lutado por Elturel.
Comandado homens por Elturel.
Arriscado a própria vida inúmeras vezes por Elturel.
E seus superiores haviam utilizado ele e seus soldados como peças descartáveis.
Ele se sentiu usado.
Mas havia algo ainda pior.
Guts sabia que seus superiores eram responsáveis por esconder informações.
Porém, também sabia que a decisão de entrar naquela fortaleza daquela maneira havia sido sua.
Ele havia sido imprudente.
Ele havia subestimado o inimigo.
Aqueles homens estavam sob seu comando.
E todos eles haviam morrido.
Esse pensamento nunca mais o abandonaria.